Contos pós-apocalípticos como a Cidade dos selvagens fascinam-me. De vírus mortais a mísseis nucleares, sejam zombies canibais ou saqueadores em carros feitos a partir de sucata, adoro o tema. Desde que ficcional, a completa destruição da civilização interessa-me muito.

Por isso mesmo não foi muito difícil abrir minha carteira e pagar os 17€ exigidos por um exemplar da Cidade dos Selvagens — AKA City of Savages — escrito por Lee Kelly.

Basicamente passaram-se duas décadas desde que o mundo foi destruído pela Terceira Guerra Mundial. Numa Manhattan relativamente intocada pelas bombas, uns poucos remanescentes lutam para sobreviver numa sociedade darwinista em que manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Enquanto Rolladin — a toda poderosa warlord do Central Park — decide quem vive e quem morre, as irmãs Sky e Phee dividem-se entre um desejo intenso de conhecer o que há para além dos arranha-céus da ilha e a segurança que o parque oferece. À medida que as irmãs tentam encontrar seu caminho em meio a esse dualidade de interesses, a chegada de desconhecidos vai mudar definitivamente o seu mundo.

As personagens

A Cidade dos SelvagensAqui entre nós, eu comprei esse livro principalmente por causa do clássico Fuga de Nova York, do John Carpenter. Após ler o livro, tenderia a dizer que não há comparação possível mas obviamente Lee Kelly viu o filme algumas vezes porque muitos dos elementos de Carpenter — canibais nos subterrâneos, bandos com armas improvisadas e chefes carismáticos, até mesmo cientistas malucos — estão lá.

Só que, enquanto a Nova York de Snake Plissken é frenética, a de Sky e Phee é quase contemplativa. Há uma forte carga emocional e a dualidade interior das duas irmãs vai sendo construída devagar mas de forma muito interessante.

A própria forma de escrever a estória é bem concebida e pensada para esse descobrir da psiquê das irmãs já que cada capítulo — de forma alternada — é narrado em primeira pessoa por uma delas, do ponto de vista de uma delas, o que muitas vezes nos causa sentimentos contraditórios.

Os seus passados vão também ser descortinados ao longo da trama por um diário encontrado ao acaso. Esse descortinar reforça a dualidade do livro já que, a medida que o formos descobrindo, nossas opiniões e sensibilidades em relação a outras personagens irão mudar.

Embora haja algumas personagens unidimensionais, concebidas sob o signo do cliché, na Cidade dos Selvagens, as personagens que realmente importam são de carne e osso, nem totalmente boas nem totalmente más. Ou seja, a primeira impressão não será aquela que ficará.

A Escrita

A escrita em si é credível e de fácil acesso. Não é preciso ser um acadêmico para compreender a mensagem, nem um imbecil para chegar até o fim. Terminei-o em dois dias, lendo-o apenas na viagem de comboio de casa para o trabalho.

O tom é claramente feminino, como a autora e as personagens mais relevantes mas não chega a ser feminista. Claro que não passou ao largo o facto do “vilão” ser homem, e da sua principal característica é usar as mulheres como objetos destinados à reprodução. Talvez um dia venha a perceber porque é que empoderamento feminino tem sempre que ter esse carácter dominante ao invés de outro igualitário, mas essa é uma conversa para outra hora.

De resto, a Cidade dos Selvagens é um bom livro mesmo para quem não gosta dos temas pós-apocalípticos. Não é maravilhoso, mas é um bom livro. Não só aconselho a leitura como leria — e pretendo ler — outros livros da Lee Kelly.