Comprei o romance “A Gárgula” — AKA The Gargoyle, de Andrew Davidson — por 5€ num desses quiosques de rua que adquirem livros a livrarias e editoras falidas, depois revendem a preços muito simpáticos.

Nunca tive grandes expectativas e, por isso mesmo, ficou esquecido na minha estante por muitos meses até que a pandemia fez com que o meu tempo livre para ler aumentasse exponencialmente. Na falta de alternativas mais interessantes e de dinheiro para comprar coisas melhores, lá veio a Gárgula para as minhas mãos.

A GárgulaA Gárgula é daqueles livros que prendem quase instantaneamente e a culpa disso é da sua personagem principal — sem nome — que tem tudo para ser odiada, mas que, por alguma razão, atrai de uma forma impressionante.

A Personagem sem Nome

Já no início do livro, devido ao uso abusivo de álcool e de drogas, sofre um acidente e fica com quase 100% do corpo queimado. — Não é spoiler, não se preocupem.

À medida que se recupera, nosso anti-herói revela-se viciado em drogas, sem caráter, prostituto e ator porno, além de um órfão que viveu a adolescência entre tios abusivos — também viciados em drogas — e famílias de acolhimento.

Ou seja, tem tudo para ser odiado, mas não é o caso.

A maior parte dos livros é focado na estória. Algo muito interessante está para acontecer então, ou a personagem principal tenta impedir que este algo aconteça, ou tenta garantir que este algo aconteça. Em A Gárgula, o interessante — acidente de carro — já aconteceu logo na primeira página. A estória foca-se quase completamente na personagem — moribunda ou convalescente, variando conforme a página do livro — e na sua catarse em direção a ser tornar uma pessoa melhor — ou pior — dependendo do ponto de vista.

Com isso o segundo ato é gigantesco e o primeiro quase inexistente, dando a impressão que a estória não sai do lugar. Lê-se páginas e mais páginas em que tudo o que acontece é nosso anti-herói reaprendendo a caminhar ou a imaginar ser voltará vivo de mais uma cirurgia.

Andrew DavidsonE antes que alguém pense que é uma seca ou depressivo, não é! Muito pelo contrário.

O processo de recuperação das queimaduras é tão interessante, e contado de forma tão realista; e os sentimentos da personagem esmiuçados de forma tão exímia, que fiquei até com pena quando a personagem sem nome finalmente sai do hospital com medo de que a estória caísse de qualidade ou perdesse o interesse.

Andrew Davidson esteve tão bem na forma como lidou com a unidade de queimados, que até se fica a pensar se ele passou por uma situação semelhante com algum familiar ou amigo próximo. A verdade é que, como o próprio Andrew disse numa entrevista ao The Guardian, a Gárgula exigiu uma quantidade fenomenal de pesquisa, desde tratamentos com queimaduras até escultura alemã medieval.

Uma das coisas interessantes de escrever sobre tratamentos de queimadura é que eu não precisei usar minha imaginação porque o que realmente existe é muito mais interessante, e bizarro, e maravilhoso e horrível do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Para mim, nunca foi melindroso ou desconfortável escrever sobre o tema por ele ser tão fascinante. Eu estava totalmente engajado em aprender sobre isso (The Guardian: Burning up the bestseller charts).

Marianne Engel

Se Andrew Davidson foi perfeito com seu anti-herói vítima de queimaduras, é ainda melhor ao introduzir Marianne Engel. Além dela ser a mentora, a princesa e a mandante, é também a introdutora de uma segunda linha narrativa que nos faz imaginar se o conflito finalmente será introduzido de forma aberta na trama.

Isto porque Andrew deixa-nos perdidos sobre o conflito real já que, como a própria personagem principal começa o livro física, psicológica e emocionalmente num estado lastimável, sem ter nada porque viver, também não há nada pelo que lutar nem nada a ganhar.

Qual é o conflito de A Gárgula? É a personagem a tentar se recuperar das queimaduras? É o de Marianne a lutar contra os seus demónios interiores? É o da narrativa que ela introduz? Até a última página não se sabe bem qual é o conflito.

E mais, Andrew brinca a todo o momento com as expectativas de quem lê, fazendo-o esperar que um dos conflitos se torne o principal só para ver que, na verdade, é o outro e, para mais tarde, voltar a deixar de o ser. O autor sabe usar os clichés contra o leitor, e adoro quem saber fazer isto bem.

A Conclusão

A primeira vista, A Gárgula é um triller de suspense sobrenatural, temperado com elementos fantasia… Após a leitura, percebe-se que é uma estória profundamente carregada de sentimentos, e que leva o leitor a pensar nas grandes metáforas da vida e da morte. Ao chegar à última página, por muito pouco que não perdi a minha reputação de jamais chorar em livros nem em filmes… mas fui salvo pela minha filha que entrou na sala a gritar qualquer coisa.

Enfim, vale muito a pena ler A Gárgula. Queria que todos os livros que já li tivessem sido assim tão bons.