Não conheço muito de literatura portuguesa e estive sempre dividido em relação ao pouco que li. Um professor disse-me que os autores portugueses são excelentes na forma, mas deixam muito a desejar em relação ao conteúdo. Acho que sou desta opinião também.

Antes que alguém reclame, não tem a ver com ser bom ou ruim. É apenas uma abordagem diferente em que a viagem é mais importante que o destino. O “driven” está muito menos relacionado ao “plot” do que à confusão interior tão presente nos seres-humanos.

É quase como comparar o “Iluminado” de Kubrick com o “Iluminado” de King: no primeiro a gente ama o que está a ver, não entende nada e sai cheio de dúvidas; no segundo a gente compreende tudo, mas fica a pensar que podia ter tido um pouco mais de “UAU”!

E dito isso, eis que uma amiga me deu presente o livro “Oração a que faltam joelhos” do Jacinto Lucas Pires.

A única coisa que sabia do autor é que ele escrevia crónicas para revistas cor-de-rosa, o que sempre me fez pensar nele como a versão masculina da Margarida Rebelo Pinto. Só que a cavalo dado não se olha os dentes, e lá fui eu ler o presente.

Sinopse da Editora

Órfã de mãe, desde cedo Kate Souza aprendeu a conviver com os silêncios do pai António e o espaço que estes ocupavam na ampla casa familiar, de madeira, com cerca e relvado à frente, igual a tantas outras, nessa terra das oportunidades para onde há muito os pais haviam emigrado. No entanto, quando António morre afogado no rio Lima, durante as primeiras férias de Kate em Portugal, ela sente-se perdida, culpada e com uma história nas mãos. Uma história que é a sua vida. Talvez seja isso que — num mundo duro e doente, com cada vez menos capacidade de imaginação — faz dela escritora.

Identidade e culpa, amizade e amor, jornalismo e literatura, totalitarismo e loucura, terrorismo e religião cruzam-se na história desta mulher, num tempo e num mundo onde, à falta de outro milagre, as velhas linguagens parecem querer renascer.

Comprar ou não comprar

Se alguém me perguntar se eu gostei do livro, direi. — Gostei muito. Gostei tanto que o li sem parar, num só dia.

Se alguém me perguntar se eu aconselho o livro, direi. — Sem dúvida! Vale muito a pena ler.

Agora, se me perguntarem se eu entendi o livro… Não. Aliás, vou levá-lo na mala da próxima vez que for a Amesterdão, para uma releitura num coffee shop após ter fumado uma broca XXL.

A sério, comprar ou não comprar

A sério, não estou a brincar quando digo que gostei muito do livro e que já pus outros livros do Jacinto Lucas Pires na minha wishlist, mas é como assistir o “Iluminado” de Kubrick, ou como ter um daqueles sonhos lúcidos em que uma hora estamos com a Mulher Maravilha nos Pasteis de Belém e, na outra estamos a apresentar o trabalho final do mestrado com um tiranossauro rex cor de rosa, e tudo parece perfeitamente plausível.

Penetra-se na psiquê da personagem principal, Kate Souza, e na forma como ela lida com a morte do seu pai, e a partir daí o que importa é a viagem, não propriamente o destino.

E é difícil fazer isso!

As personagens misturam-se, as situações surgem e resolvem-se, tudo com uma ligeira aura surreal. Sem querer dar spoilers, muitas vezes fica-se a perguntar se o que está a ler é o que aconteceu com a Kate, o que está a acontecer na mente da Kate, ou algo que ela escreveu (já que a personagem principal é escritora).

Enfim, não é um livro fácil, nem linear, muito menos um livro para quem não tenha o hábito da leitura, mas é foi uma grande surpresa que não só me apresentou o trabalho do Jacinto Lucas Pires, como me fez querer ler mais deste autor…

Aldous Huxley
…de preferência numa coffee shop de Amsterdão.