A minha professora pediu que eu escrevesse em meia hora um texto de escrita livre sobre qualquer tema que cumprisse os seguintes objetivos: que contivesse imagens fotomatom (photo booth), que tivesse pelo menos duas cenas consecutivas; meta-literatura; espontaneidade e uma certa loucura; onomatopeias; dramaturgia; um lado confessional; uma sucessão de palavras; referências; uma surpresa; descrição de circunstâncias; e que terminasse com uma sucessão de palavras começadas por “R”.

Como eu não fazia ideia do que eram imagens fotomatom, fui procurar no Google e acabei por encontrar uma imagem do pintor surrealista Yves Tanguy. Daí surgiu a ideia para um texto tão surrealista quanto o pintor e os requisitos pedidos.

Yves Tanguy

Texto

Yves Tanguy sorriu, imitou Marilyn Manson e gostou. Não, odiou! Não sei como alguém pode gostar daquele gajo, se bem que Cupid Carries a Gun é espetacular. É mesmo boa.

Ele tirou a roupa, cobriu-se de mel e penas de papagaio, comprou uma Glock 9mm e «Grrraaauu»! Entrou na loja da Nespresso, deu um tiro na vendedora loira com a sua minissaia cinzenta, e outro no estagiário, que trazia calçado um sapato de vela à lá «gostaria de ter bom gosto, mas tudo o que consegui foi ir à Sacoor».

Deu-lhes um bouquet de rosas-vermelhas e um cupão válido para uma viagem de cinco dias grátis, com tudo incluído, na Tunísia, e saiu diretamente para a Worten, sempre a cantar «love is in the air». Ah! Esse Yves Tanguy é tão maroto!

Queria eu poder ser assim! Não sou desses. Jogo pelo seguro, sem jamais me expor. Até quando escrevo, uso pseudónimo: Raimundo Rezador! Rato ruador reiterado rogando por uma oportunidade, um único editor que se digne a ler a minha prosa. Quando for publicado, já sei até quem vou contratar para tirar a fotografia da contracapa. Isso mesmo, Yves Tanguy! Já imagino a cena:

INT. AUDITÓRIO DA LIVRARIA DA TRAVESSA – TARDE
Yves Tanguy surge detrás de uma cortina azul com um exemplar do seu livro e senta-se num banco amarelo. Um dos presentes quer saber porque o seu novo romance não tem nenhuma personagem que seja um marciano verde. Quer saber também se o autor tem algum preconceito contra marcianos verdes.

Yves Tanguy mexe a sua boca, sendo dobrado pelo real e envergonhado autor, Raimundo Rezador, que explica que o livro é dele, logo entram as personagens que ele quiser.

Glu gluuu gluuu! Alguém surgiu da loja da NOS a imitar um peru e agarrou Yves Tanguy antes que ele conseguisse chegar à Worten. Um segurança aproximou-se para ajudá-lo, mas o atacante gritou — Parem que esse aí não é Yves Tanguy!

— Claro que sou! — Yves Tanguy respondeu indignado, lambendo o mel de um dos seus dedos para ver se o açúcar o animava.

— Não é nada, mentiroso! — O atacante agarrou a cabeça de Yves Tanguy e puxou-a, revelando, num melhor final Scooby-Doo, que Yves Tanguy era, na verdade, o único ser humano capaz de falar sem errar enquanto assobiava, o rato roeu a roupa do rei de Roma.

That's all folks