Em mais de vinte anos a morar em Portugal, só por duas vezes tive problemas com preconceito por ser brasileiro.

A primeira aconteceu logo após ter casado. Foi uma situação extremamente agressiva e arrependo-me até hoje por não ter prestado queixa À PSP. A segunda foi durante o fim de semana, no Ikea.

Vou comprar um caixote de lixo e, na saída, paro para comer um cachorro. Ponho o caixote no chão, ao meu lado, aparece uma senhora, abre a tampa e deita a sua bandeja cheia de comida para lá para dentro.

Reclamo e ela passa-se.

Para ela é muito óbvio que, apesar de o caixote estar embalado e não ter nada a ver com todos os outros caixotes de lixo da área de alimentação do Ikea, tem todo o direito de usá-lo como caixote público. E lá vem a pérola:

— Volta para onde tu vieste!

Estou sem máscara, já que estou a comer, e faço uma amigável expessão facial, condizente com a minha irritação.

— Como é que é?

A senhora pensa melhor e olha para o chão.

— Nada não…

— Acho mesmo muito bem que não seja nada mesmo.

Como ela desiste de continuar com a retórica do ”volta para onde tu vieste”, também desisto de prestar queixa por xenofobia. Aquela senhora não imagina do que se livrou, porque eu não iria deixar esta situação passar sem um processo.

Aí alguém poderá dizer.

— Mas espera, tu és cristão. Tu pregas o amor e o dar a outra face. Onde é que está o perdão em levar a senhora à polícia e prestar queixa por xenofobia?

Há uma grande diferença entre amor, medo e preguiça.

Alguém já disse que para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada. O problema é que, nos dias de hoje, parece que só temos feito nada.

Não há amor em permitir que alguém aja mal e siga a sua vida como se nada fosse, talvez para fazê-lo novamente no futuro. Não tomar uma posição naquele momento, seria apenas preguiça por não querer perder tempo com tudo o que adviesse da queixa, ou medo de me expor, etc… não amor. Amor é tomar uma posição e agir de acordo com ela.

Cristo fez isso. Cristo até morreu por isso.

Mas nós cristãos acabamos deixar para lá e saímos de cena com o rabo entre as pernas porque tomar uma posição dá muito trabalho, porque não adianta nada ou porque temos que perdoar… mas, na verdade, não queremos é expor-nos ou ter trabalho.

Estamos tão desconexos do confronto que nos alienamos de coisas tão simples quanto ficar atentos à política para perceber quais partidos tomam iniciativas que nos afrontam, e deixar de votar neles.

Somos capazes de afirmar que morremos por Cristo, mas não de deixar de assistir a Netflix quando ela distribui filmes que ridicularizam Jesus, caracterizando-o como homossexual e bêbado.

Não estou a dizer que temos que comprar todas as brigas e lutar contra todas as injustiças por que isso seria absurdo, mas também não podemos aceitar tudo. Como a bíblia diz, não nos podemos conformar com este século. Se o sal perde o sabor, só serve para ser jogado fora.

Como cristãos e como cidadãos temos que tomar posições quando for necessário. Não a posição estúpida de chamar alguém “filho disso ou daquilo”, mas uma posição construtiva que vise a mudança.

É engraçado que, na grécia, idiota era o termo usado para designar aqueles que eram “homens privados”, que só tinham o direito de se envolver nos seus próprios problemas, sem poder opinar na coisa pública. Ou seja, aqueles que não votavam nem contavam politicamente.

E usando política no termo mais amplo, que vai muito além do dia das eleições, ao nos eximirmos de tomar posições e de nos envolvermos por preguiça, por dizemos que temos que agir em amor ou dar a outra face, tornamo-nos exatamente isso: idiotas.