É interessante — Not! — assistir todos os anos à divulgação do ranking das escolas. Invariavelmente TVs, rádios e jornais noticiam que os primeiros lugares são — Todos! — ocupados por escolas particulares, depois apresentam peças onde membros do governo explicam que não é bem assim.

Não há uma forma melhor de publicidade para as escolas privadas.

Os pais e as mães ficam a sonhar com o quão bom seria tirar os filhos das escolas públicas onde andam, e lamentam-se porque os seus salários só permitem que andem em escolas que estão muito mais para o Passos de Ferreira do que para o Benfica.

A impressão que se tem é que a solução para os problemas da educação é a escola particular. Não é.

Digo isso com toda a propriedade. Nasci no Brasil, onde a escola pública é uma piada e o futuro profissional de alguém depende sorte: os pais têm dinheiro para pagar uma fortuna por uma escola privada ou não?

Ensino Público no Brasil

Há escolas privadas muito boas e escolas privadas muito más… e há até professores que dão aulas nas duas ao mesmo tempo. Assumir que uma escola é melhor só por ser privada é uma falácia já que a qualidade na educação passa por vários fatores. Eu diria que o mais óbvio é quantidade de dinheiro investido por aluno, mas um das mais relevantes é a exclusividade.

É sociologia pura e dura, está mais do que estudado. Filhos de pais com cursos superiores têm muito mais tendência a terem eles próprios uma licenciatura; filhos de pais que leem têm muito mais tendência a serem ávidos leitores, e assim por diante. Há até estudos que explicam que os filhos de pais ricos tendem a ser mais inteligentes que os filhos de pais pobres… e aqui até podemos perceber como o racismo vai muito além do que a cor da pele.

Não é que esta questão de inteligência e da pobreza tenha a ver com material genético, mas sim com a quantidade de estímulos intelectuais que uma criança recebe nos primeiros anos de vida, e que influenciarão o desenvolvimento da sua capacidade intelectual. Os pobres terão — com raras exceções — menos tempo e recursos para estimular os seus filhos, o que resultará numa menor capacidade.

Voltando ao ranking das escolas, ora, a principal diferença entre as escolas privadas e públicas é que qualquer pai poderá colocar os seus filhos numa escola pública, mas só aqueles que tiverem dinheiro poderão ser clientes de uma escola privada.

O valor da mensalidade garante que uma escola privada será quase unicamente frequentada por “WASP”[1]WASP: um termo inglês que significa Branco, Anglo-saxónico e Protestante. portugueses, sem qualquer vestígio de população marginalizada e dos problemas sociais normalmente a ela associados. Também garante, a priori, que os alunos terão um nível intelectual e motivacional alto.

Aí é que está o busílis: é fácil ganhar campeonato com um plantel cem vezes melhor do que o dos rivais. A Apple faz isso.

Windows vs Mac

Ouço muita gente dizer «o meu Mac funciona muito melhor do que um Windows» como se a Apple tivesse técnicos muito mais espetaculares do que a Microsoft, quando é o contrário. A Apple limita o seu sistema operativo a hardware escolhido a dedo, e o cliente tem que se sujeitar ao que lhe é oferecido. Já o Windows funciona com qualquer hardware que qualquer companhia do planeta resolva criar. É mais muito mais simples desenvolver um sistema que funcione só o “crème de la crème” do que um que funcione com tudo. Vejo muito mais virtude na abrangência do Windows do que no controlo seletivo do Mac.

Então, onde é que está realmente o mérito do ensino público português? A inclusão.

Uma sala de aula pública junta ricos e pobres, negros e brancos, miúdos que vêm de famílias estruturadas e outros que são incentivados a abandonar a escola, alguns que até mesmo têm que trabalhar para ajudar os pais. Motiva-os a não abandonarem a escola e tenta suprir uma educação que, muitas vezes, não é dada em casa. Tudo isso ao mesmo tempo que oferece a todos um ensino de qualidade e boas perspectivas de se entrar numa universidade.

Claro que se pode dizer que ele poderia ser melhor… — Óbvio que poderia! — mas isso não significa que o ensino público seja um mau ensino. O ranking das escolas compara o que não pode ser comparado.

Tenho a certeza de que quando observado com todos os indicadores de contexto o ranking pode ser uma ferramenta útil para compreender muitas coisas, mas jogá-lo de uma forma simplista na primeira página de um jornal como meio de justificar que o ensino português deveria ser maioritariamente privado chega a ser criminoso, principalmente quando há tanta gente a falar em racismo, quotas e tantas outras questões ligadas à segregação e ao pré-conceito.

PS.: Só para que fique claro, não acho que o ensino público precise necessariamente vir de uma escola estatal, nem tenho nenhum preconceito ideológico com a iniciativa privada, desde que tenha sentido. Também não vejo nada errado em colocar os filhos em escolas privadas. O ponto é que há ensino privado e há ensino público, e, independentemente da forma, para mim, ensino público é oferecido pelo Estado, de forma gratuita e universal.

References

References
1WASP: um termo inglês que significa Branco, Anglo-saxónico e Protestante.