— Imagine o quadro. O homem do século XIX com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século XX, acelere sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tabloides. Tudo é amordaçado ao final emocionante.

— Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas.

Para muitos, o Hamlet (certamente você conhece o título, Montag), o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: “Agora você finalmente pode ler todos os clássicos; faça como seus vizinhos”.

— Agora tomemos as minorias de nossa civilização, certo? Quanto maior a população, mais minorias. Não pise no pé dos amigos dos cães, dos amigos dos gatos, dos médicos, advogados, comerciantes, patrões, mórmons, batistas, unitaristas, chineses de segunda geração, suecos, italianos, alemães, texanos, gente do Brooklyn, irlandeses, imigrantes do Oregon ou do México.

Os personagens desse livro, dessa peça, desse seriado de TV não devem representar pintores, cartógrafos, engenheiros reais.

Lembre-se, Montag, quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia! Todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpos.

Autores cheios de maus pensamentos, tranquem suas máquinas de escrever!

Eles o fizeram. As revistas se tornaram uma mistura insossa. Os livros, assim diziam os malditos críticos esnobes, eram água de louça suja. Não admira que parassem de ser vendidos, disseram os críticos.

Mas o público, sabendo o que queria, com a cabeça no ar, deixou que as histórias em quadrinhos sobrevivessem. E as revistas de sexo em 3-D, é claro.

— Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro.

Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também.

Hereditariedade e ambiente são coisas engraçadas. Você não pode se livrar de todos os patinhos feios em poucos anos. O ambiente familiar pode desfazer muito do que a gente tenta fazer na escola. É por isso que temos reduzido a idade mínima para admissão no jardim de infância, ano após ano, até que agora praticamente estamos apanhando as crianças no berço.

Encha as pessoas com dados não combustíveis, entupa-as tanto com “factos” que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar.

E ficarão felizes, porque factos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia.


Os excertos acima pertencem ao livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, escrito em 1953, há 68 anos atrás.

Já tinha lido o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell e, cada vez que leio um deles chego a tremer de pensar em como são atuais.

O que mais me intriga, é não perceber se estes escritores previram realmente o futuro, ou se alguns dos seus leitores inspiraram-se nos livros e decidiram tornar realidade as mais terríveis distopias.

Custa-me até pensar no que aparecerá nos próximos anos.