Os feios que me desculpem, mas beleza é fundamental

by | Set 6, 2021 | Neurastenia

A anciã olha-me com os seus olhos expectantes, ligeiramente curvada e acompanhada pelo marido, com quase o dobro da sua altura. — És perfeito para o trabalho, meu jovem.

— Estou mesmo atrasado. — Viro para o relógio e penso no autocarro que, não demora muito, deve estar a chegar.

— Não levas nem dez minutos. É só um cano a vazar na cave.

— Fica para outro dia…

— Duzentos euros, quinze minutos de trabalho.

Não é que eu tivesse outro lugar assim tão importante para estar, e o dinheiro dava jeito. Por outro lado, tinha um certo ressentimento contra casais, principalmente aqueles que envelheceram juntos.

Eu nunca tive uma namorada, nem mesmo dei um beijo. Não sei se é pelos meus olhos tortos, ou devido ao meu rosto perfurado pela acne, talvez seja uma mistura de tudo. Sei é que sou feio e que nunca nenhuma mulher quis nada comigo. Fomos sempre eu e a minha solidão.

«És perfeito para o trabalho… duzentos euros, quinze minutos de trabalho.»

Palavras mágicas. Entro na casa, desço as escadas, mas não vejo nenhum cano.

— Onde está o vaza… — Um tapa no rosto manda-me contra a parede. Urino-me todo ao olhar o casal de idosos, cujos caninos crescem até tornarem-se presas afiadas. A velha morde-me o pescoço enquanto o marido crava os dentes no meu pulso direito. Perco os sentidos.

Volto a mim com a certeza de que estou a morrer. Há sangue por todos os lados. À minha frente está a mulher mais bonita que já vi, com a tez escura de uma árabe, os cabelos negros muito lisos e os olhos amendoados. Ao seu lado, um verdadeiro Genghis Khan, enorme e cheio de músculos.

— Sinto muito, meu jovem. — Ela fala com um sorriso. — Gostaria que houvesse outra maneira, mas alguém tem sempre que morrer… e hoje em dia está cada vez mais difícil encontrar sangue virgem. O século XXI não é a melhor das épocas para a ser imortal, não é verdade?

O marido faz que sim com a cabeça, segura no braço da mulher e os dois sobem, deixando-me no escuro.

Dou o último suspiro a lembrar-me de um poema de Vinícius de Moraes: “os muito feios que me perdoem, mas beleza é fundamental”.

Este texto foi escrito para o encontro do Primeiro Capítulo, e o desafio era escrever um texto de até 500 palavras com o tema “um casal idoso para-o na rua e diz que seria perfeito para o “trabalho” porque…
Eduardo Fernandes

Eduardo Fernandes

editor ◆ revisor ◆ developer

Tive duas filhas, plantei uma árvore, escrevi um romance…

Categorias

 Artigos
 Contos
 Poesia

Posts relacionados