Antigamente eu tinha aquela certeza absoluta de que cristianismo e política não se podiam misturar.

Tinha a certeza absoluta de que na igreja não podíamos falar sobre política, sobre visões de mundo, sobre ideologias, sobre leis ou sobre qualquer coisa que cruzasse minimamente a suprema fronteira do Estado Laico.

Afinal eu defendo o estado laico e tenho o direito de ter minhas visões políticas. Não é o pastor nem o irmãozinho na fé que vão dizer o que eu devo ou não pensar.

Hoje, como sempre, minhas certezas absolutas acabaram por se mostrar erradas.

Hoje eu creio que conversar sobre política e sobre os grandes temas da nossa sociedade não é só uma questão de direitos, mas um dever de todo crente. E por nos termos afastado desse e de outros deveres, acabamos por ser como o sal que perdeu o sabor e que já não serve para nada, a não ser para ser jogado fora e pisado pelos homens.

Sai estado laico

O exemplo Brasileiro é interessante. De acordo com o último censo do IBGE, realizado em 2010, os evangélicos foram o grupo religioso que mais cresceu. A tendência é que se tornem o maior segmento religioso naquele país ainda antes de 2040.

Apesar disso o Brasil tem estado cada vez mais atolado em escândalos de corrupção e completamente dominado pela ideologia de gênero e pelo marxismo cultural. Como é possível que a crença e o estilo de vida evangélicos não se reflitam na política?

Será que os cristãos levam em conta aquilo que os candidatos em quem eles vão votar professam antes de colocar seus votos nas urnas? Será que eles oram para que Deus oriente o seu voto? Ou será que a César o que é de César e a Deus o que é de Deus?

Por acaso esse versículo de Mateus 22:21 tem sido erroneamente interpretado como uma ode ao laicismo, mas ele foi dito num contexto muito específico em que os fariseus queriam testar Jesus.

O cristão deve obedecer às autoridades terrenas naquilo que lhes é competente da mesma forma que deve obedecer a Deus. Uma coisa não é desculpa para descumprir a outra, a não ser que uma autoridade vá contra aquilo que é ordenado por Deus.

E se alguém acha que Cristo não falava de política, errais, não sabendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Isso porque:

Primeiro, porque toda a autoridade vem de Deus

Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus.
Romanos 13

Ao contrário do que acontecia nos tempos de Cristo, hoje a constituição portuguesa deixa claro tanto que a soberania, una e indivisível, reside no povo, quanto que os partidos políticos concorrem para a organização e para a expressão da vontade popular.

Ou seja, a autoridade que Deus deu ao governo e aos deputados também foi dada por Deus a nós, para ser exercida de forma indireta de acordo com os preceitos democráticos. Não podemos, como cristãos, ignorar a responsabilidade que isso acarreta.

Segundo, porque o estado deve ser ideologicamente neutro

Ou, pelo menos, é o que diz o artigo 43º a nossa constituição

1. É garantida a liberdade de aprender e ensinar.

2. O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.

3. O ensino público não será confessional.

4. É garantido o direito de criação de escolas particulares e cooperativas.

Posso estar muito enganado mas, tanto o marxismo cultural, quanto a ideologia de gênero, parecem enquadrar-se naquilo que o Estado não deveria promover.

Em último, porque o posicionamento político foi uma constante no ministério de Cristo

Basta uma leitura rápida aos evangelhos para perceber o quão comum era Cristo posicionar-se contra os Fariseus, contra os Saduceus e mesmo contra os Herodianos, três dos principais grupos políticos daquela época. Aliás, essa oposição foi tão constante que esses mesmos grupos foram responsáveis pela morte de Cristo.

E antes que alguém diga que esses eram grupos religiosos, é importante ressaltar que, até o século XVIII, não havia propriamente o conceito de Estado laico. Política e religião misturavam-se e tal mistura era visto com algo normal.

E porque Cristo se posicionou contra eles mas não contra o pagamento do tributo a César?

Porque o pagamento dos tributos a César não chocava com nossos deveres para com Deus. Os projetos dos Fariseus, dos Saduceus e dos Herodianos, sim.

A partir do momento em que um partido político ou um grupo se levanta contra a lei de Deus, nós temos que ser sal tal como o profeta Amós foi sal para o seu povo. Agora, se nos eximimos da política enquanto cristãos, como é que perceberemos que um grupo está a levantar-se contra nós?

Isso é notório no famigerado Despacho n.º 7247/2019, que estabelece as normas para que a ideologia de gênero se faça presente nas escolas portuguesas.

Muito se tem falado sobre esse despacho entre os cristãos. Eu, porém, ainda não ouvi ninguém a falar sobre como nos devemos posicionar sobre ele enquanto cristãos por que isso… Ora, isso é política e não se pode falar sobre política na igreja.

E, só para esclarecer, há uma diferença muito, mas muito grande, entre falar sobre política e sobre grandes temas sociais na igreja e no culto. Igreja e culto não são a mesma coisa.

O culto é o momento nos reunimos para cultuar a Deus. A igreja, aqui numa concepção local, é o conjunto cristãos que se reúnem juntos em comunhão.

Então deixamos passar? Assumimos que não há nada que possamos fazer? Em setembro haverá eleições para o parlamento português e a coisa mais fácil é descobrir quem é que apoia a ideologia de gênero, a eutanásia, o aborto, e tantos outros pontos que são importantes para nós, enquanto cristãos.

Votaremos neles como se não fizesse qualquer diferença o que eles defendem e o que eles propuseram? Anularemos os votos — o que, na prática, não faz qualquer diferença? Votaremos em outros partidos com os quais não nos identificamos?

E a questão aqui não é se devemos votar ou não no partido A, B ou C, porque isso é algo que só o Espírito Santo nos poderá dizer.

Se fosse fácil ser cristão, Cristo não teria dito esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão.

A questão aqui é que temos que ter a coragem de discutir essas coisas como igreja; de pensar juntos nessas coisas como igreja; de orar juntos sobre essas coisas como igreja; e de concertar estratégias juntos, como igreja.

O que não podemos é usar da desculpa de num Estado laico para divorciar cristianismo da política da mesma forma que já divorciamos o cristianismo da ciência.