Not really, mas escrevo esta crónica após ter ouvido ontem um programa de comentário político cujo título era Cegueira ideológica do PCP ou suicídio, a propósito da insistência do partido em criticar a maneira como o ocidente apoia a Ucrânia, além de ser contra a presença — ainda que virtual — do presidente Zelensky no parlamento português.

Bem, após a pandemia de acefalia grave ocorrida nos últimos dois anos e do abaixar generalizado de cabeças em concordância cega, sou obrigado a admirar um partido que é mais fiel ao que acredita do que às redes sociais e às pesquisas de opinião.

Discordo em tudo do PCP, mas preciso reconhecer o que merece ser reconhecido: já não existem partidos — nem políticos — com disposição para serem impopulares. Por isso mesmo não há mais nenhum Churchill e por isto mesmo o PCP está em vias de extinção. Já vai tarde, mas não é esta a questão.

O PCP sempre foi um partido estúpido, composto por estúpidos, não no sentido pejorativo do termo, mas na melhor definição do Cipolla: “estúpido é aquele que perde com as suas ações e que faz os outros perderem também”.

Só pode ser estúpido endeusar Estaline, Lenine e a URSS e ver o mundo de uma maneira fanático-religiosa, mas a problema real do PCP é falhar em perceber que o comunismo clássico já não é uma causa que interesse às pessoas. Hoje em dia há ideologias para todos os gostos, várias delas consideradas como ciências empiricamente comprovadas. Para quê insistir num modelo falido, que caiu com o muro e que só levou à generalização da pobreza?

Mas amor à camisola é isso mesmo. O PCP são os trezentos de Esparta que se colocam na brecha e decidem lutar até cair. Acho heroico e acho bonito, ainda que, como já disse estúpido.

A estupidez de não seguir os trending topics do Twitter. Porque toda a gente do século XIX acredita piamente na liberdade de expressão e em zelar — de forma politicamente correta, é claro — pelas ideologias certas e aceitáveis. Um bom político do novo milénio deve compreender algo tão básico. Já não nos importamos com o que se acredita, desde que esteja no rol daquilo que é aceitável que se acredite.

E isto é ainda mais estúpido, todos aceitam tudo para parecer bem na fotografia. E como para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados, há crueldade de sobra para todos os gostos. E houver problemas, basta pegar a etiqueta e escrever fascistas, racistas ou negacionistas… ou pró-Putin, já agora.

E se o PCP cair ao defender algo que lhe é caro, pelo menos a minha admiração terá. Não lhe daria o meu voto, mas desejo do fundo do coração que haja mais políticos — e partidos e eleitores — capazes de agir sem olhar ao feed do Facebook.