Hoje um amigo de infância morreu.

Morreu de quê? Não importa. Morreu, pronto. Quarenta anos, um menino! E era mesmo um menino, e era assim que me lembrava dele. Um menino.

Ainda há poucos meses estive com ele. Havia um clima estranho no ar. Velhos compadres que há muito não se viam. Que seguiram caminhos diferentes na vida. Que aprenderam coisas diferentes na vida. Que pensavam de forma diferente. Que amavam e odiavam coisas diferentes, mas que se lembravam das noites que passaram juntos a jogar e a criar mundos e realidades, e a jamais pensar que haveria um dia em que nada mais haveria.

Mas há sempre um dia em que nada mais haverá. Para ele chegou mais cedo e se estou a escrever isto é porque ainda não bateu à minha porta… mas baterá.

E eu penso, com a consciência pesada, em todas as vezes que fui ao Brasil e que deixei que os afazeres, que as coisas, que o nada, que tudo me impedisse de pegar o telefone ligar e dizer.

Jean, há quanto tempo, vamos beber uma cerveja.

Só que agora não há mais cervejas para nós. Haverá para mim, com todo o egoísmo amargo do lúpulo. Ele se foi e bebo em sua memória. É só o que posso fazer. Haverá dia, espero, que alguém beberá em minha homenagem. Que ainda demore! Não tenho pressa para o fim, até porque não há fim.

Um momento, um piscar de olhos, a eternidade.

E é esta a diferença. Quando nada mais houver, haverá. Sem morte, sem dor, sem tristeza. Sei de onde vim. Sei para que estou aqui. E sei que irei um dia para junto do meu pai, meu Deus, que me olha e diz:

Calma, já passou. Não é fácil, eu também sofri. Morri numa cruz. Não posso tirar-te do mundo, mas posso partilhar a tua dor e dizer que um dia vai passar. Não haverá mais choro, nem tristeza ou despedida. Até lá, estarei contigo. Depois, continuarei contigo. Para todo o sempre.

Mas isto é conversa, é esperança. E ainda que seja também uma certeza — absoluta — fico aqui a pensar no meu amigo que se foi e no quão definitivo isto é. O homem foi feito com a eternidade no coração e com a morte no corpo. E esta interrupção — por breve que seja — quebra-me ao meio como um caniço dobrado pelo vento.

Se Jesus chorou, também posso chorar.