Ele

Olho bem fundo aqueles olhos azuis, carregados de lágrimas. Vem-me à cabeça uma música do Chico Buarque.

Quero ver o que você faz ao sentir…

Não, não quero ver nada. Não quero estar aqui nem ter esta conversa. Não quero lembrar de uma estupida música sobre um amor que se acabou até porque é isso mesmo que estou agora a fazer: destruir um amor, uma vida, um futuro.

Não consigo desviar o olhar daquele cabelo louro, daquela pele branca, daqueles olhos azuis que em breve nunca mais olharei. Uma pontada de dor atravessa meu coração ao perceber que estou a terminar com tudo. Tudo!

Quase enlouqueci mas depois, como era de costume, obedeci…

Viro-me para o marido. Odeia-me. Depois do que acabei de dizer, qualquer marido odiaria-me. Baixo os olhos e a única coisa que encontro é uma caneta largada na mesa.

Bic… Bic… Bic… Bic… Leio aquela marca vezes e vezes sem conta como se fosse um mantra, com o interesse de quem está mergulhado no melhor livro alguma vez já escrito. Bic… Bic… Bic… Bic… Qualquer coisa é melhor que voltar a olhar para aqueles olhos azuis, para aqueles lábios. O que me responderá? O que dirá para o marido? É o fim.

Quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem…

Tenho que ser firme! Tenho que ser forte! Alguém nesta sala tem que o ser. Viro-me novamente para o marido, depois para ela. Estendo-lhe a mão para tocar em seu ombro e ela dá-me um tapa. Maldito!

Nossos olhares cruzam-se uma última vez. Maldito! Ela grita, levantando-se de um salto, com tamanha violência que derruba a cadeira. O choro já não pode ser contido e corre porta a fora.

Quando talvez precisar de mim, você sabe que a casa é sempre sua, venha sim

O marido olha-me. Sua expressão já não é de raiva mas de tristeza. Estendo-lhe a mão e, agora, é a sua vez de olhar para baixo, virar e sair atrás daquela que ama.

É o fim.
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Ela

Não consigo conter as lágrimas. Não consigo desviar os olhos daqueles olhos castanhos, daqueles cabelos brancos. Não consigo fazer nada. Nada!

Não consigo mover-me. Não consigo respirar. Não consigo nem mesmo sentir… Não consigo sentir!

Parece que o mundo inteiro congelou mas sou eu que estou congelada. É assim que se sente quem se suicida jogando-se de uma janela. Salta-se e tudo pára, ainda que o chão esteja a aproximar-se a uma velocidade vertiginosa.

Sinto o baque. Sinto um arrepio. Minhas mãos doem. O sangue ribomba ensurdecedoramente em meus ouvidos.

O que será da minha filha? O que será do meu marido? Então é assim? Tenho que o largar, do nada. Ele não consegue nem lavar as cuecas e vai cuidar da minha filha sozinho? Bum! Bum! Bum! O sangue rebenta minhas têmporas. Minha cabeça dói.

Ó Deus, porque é que tem que ser assim? Que mal que eu te fiz, Deus? Meu marido…

Meu marido nem sabe lavar as cuecas. Danem-se as cuecas! Que se lixem as meias jogadas na casa de banho! Tivemos uma vida tão boa, Deus. Porque é que brigávamos por coisas tão parvas? Porque é que deitei tudo fora? Porquê, Deus?

Meus olhos cruzam-se mais uma vez com o homem sentado a minha frente. Um espasmo de raiva percorre meu corpo quando ele tenta confortar-me, tocando-me o ombro. Maldito! Grito, começou a chorar, depois corro porta a fora. Minha cabeça vai explodir, repetindo sem parar as últimas palavras do médico.

Cancro terminal no pâncreas com metástases em todo o corpo. Pode não ser hoje, pode não ser amanhã… Mas, como toda a certeza, a senhora está morta na semana que vem.

Esta pequena crônica foi escrita há uns quatro anos atrás, quando andava na Universidade Autónoma de Lisboa, para a cadeira de Escrita Criativa. O tema “duas almas perdidas” foi proposto na altura pelo meu professor, o saudoso e espetacular João Louro.

O crônica em si foi baseada num pequeno conto sobre duas almas perdidas de um autor português de cujo nome não me lembro; na música Olhos nos Olhos, de Chico Buarque; e numa situação que aconteceu com uma conhecida minha.