Paulo Fura bufa de irritação. O quê? Oito e meia, já? Fônix! Desde às cinco que estava no volante de seu táxi e ainda não tinha apanhado nem um passageiro. Passa devagar pelo Pingo Doce do Arco do Cego a espera que alguma senhora fizesse sinal mas nada. Fogo! Cadê as velhotas a sair do mercado? Será que ninguém mais apanha táxi hoje em dia? Culpa da Über. Odeio Über!

Está cheio de fome e o que tinha na carteira mal dava para comprar um café. Café? Mal dava para comprar um cigarro. Não conseguia parar de pensar em tabaco. Foda-se, onde é que eu tava com a cabeça quando decidi parar de fumar? Pelo amor da Santa! Desliza a mão pelo bolso da camisa para sentir o maço amassado que insistia em deixar por lá. Suspira e pega duas pastilhas de nicotina que acaba por arremessar para a boca. Maldito Über!

Uma mão estendida chama-lhe a atenção que, quase imediatamente, é desviada para um rabo espetacular colado a uma saia minúscula com padrão tigresa. É puta, de certeza. O que eu queria saber é como é que gaja aguenta andar com as pernas de fora num frio desses? Boa noite.

— Boa noite, amigo. A jovem fala com um ar simpático — Eu preciso ir até a Rotunda do Relógio. Tens ideia de quanto é que fica a viagem?

— Uns dez euros, mas coisa, menos coisa. Quinze no máximo

— Olha, a noite tem andado meio fraca…

— A quem o dizes.

— Pois… Enfim, a noite tem andado meio fraca. Será que a gente não conseguia fazer um acerto?

— Acerto?

— É. Tipo, eu faço-te um broche e tu levas-me lá.

— Um broche? Uhn… Diz-me uma cena. Tu gostas de foder?

— Uma foda já é muito cara para pagar uma viagenzinha até ali.

— Yá! Mas não foi isso que perguntei… Perguntei se tu gostas de foder?

— Se eu não gostasse, não era puta.

— Então fode-te!

Fura arranca o táxi sem nem ouvir o que a prostituta começa a xingar. Broche é o tanas. Eu quero é comer e não é puta. E fumar, já agora. Será que ninguém mais apanha táxi nessa cidade? Maldito Über!

Enfia mais uma pastilha de nicotina na boca enquanto segue pela Almirante Reis e decide fazer uma tentativa no aeroporto. Depois de quase quinze minutos na fila da paragem de táxis entra um senhor de meia idade com uma maleta na mão.

— Vou colocar na bagageira pro senhor ir mais confortável.

— Precisa não, que é uma mala pequena. — O senhor responde com um sotaque brasileiro.

— Não sei lá no Brasil mas aqui em Portugal é obrigatório que as malas sejam colocadas na bagageira

— Sério? Não sabia disso.

— Mas é. Tem taxista que não liga pra isso mas se a polícia perceber, a gente recebe uma coima.

— Uma o quê?

— Uma coima… Acho que no Brasil é multa. O senhor vai pra onde?

— Parque das Nações.

— Ah tá. — Fura não disfarça a decepção pela viagem ser tão curta, mas começa a conduzir e tenta puxar conversa. — O senhor está aqui a trabalho? É do Rio?

— Estou a trabalho sim. Não sou do Rio não, sou de Uberlândia

Como é que é? Über o quê? Odeio Über! Fora do meu táxi. Não quero saber. Chama um Über. E são cinco euros, três do mínimo mais o complemento de bagagem. Uberlândia, é o carago! Fura volta a seguir viagem vociferando consigo mesmo. Mete a mão no bolso e puxa do maço mas, num supremo esforço, volta a colocá-lo lá e enfia mais uma pastilha de nicotina na boca. Vê uma mão estendida e pára.

Entra um jovem com a namorada e o táxi segue para Santos. Compraste tabaco? A jovem puxa um maço de Camel Activate da mala. Fura vê aquilo e não aguenta mais. Mete a mão no bolso da camisa, enfia um cigarro na boca e acende.

— O que é isso? — O jovem pergunta irritado. — É proibido fumar no táxi.

— Mas vocês fumam!

— Não no táxi.

— Cabrões do caralho! — Fura reclama baixinho mas é ouvido pelo casal.

Como é que é? Exclama o rapaz. Quero o livro de reclamações! Pede a rapariga, vermelha de raiva. Vão à merda os dois! E vão de Über! Fura pára o táxi, põe os passageiros para fora e segue irritado.

Mais à frente, pára numa rulote e compra uma sandes com os cinco euros que recebera do brasileiro, devorando-a quase à velocidade da luz. Depois, puxa o maço de cigarros do bolso e fuma cinco de rajada, sentindo o prazer que só a nicotina pode proporcionar. Está ainda a sentir os efeitos da fumaça quando toca o telemóvel. É o chefe. Quer que Fura volte para a cooperativa imediatamente. Maldito Über!

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Faz já meia hora que Fura está sentado junto ao Tejo e o sol está a nascer. Cabrões filhos da puta! Fura pensa no casalinho que fez queixas à cooperativa e amassa o papel com sua carta de demissão. Justa causa… Filhos da puta! Maldito Über.

Agora o que é que eu vou fazer? Como é que eu vou conseguir emprego? Fura puxa o maço do bolso e fuma mais um cigarro. O sol tinge de vermelho as águas do Tejo. Fura atira longe a beata, balançando as pernas por cima do rio. Chega para frente e olha para baixo, quase como se fosse atirar-se. Fica ali por alguns segundos. Parado… Inerte…

Depois volta para trás e olha para o céu, flexionado o pescoço. Mete a mão no bolso e puxa o telemóvel, lembrando-se que há pouco tempo tinha feito um plano com acesso à Internet. Abre o Google e escreve: “como ser condutor da Über“.

Esta pequena crônica foi escrito há uns quatro anos atrás, quando andava na Universidade Autónoma de Lisboa, para a cadeira de Escrita Criativa. O tema “Über vs Taxis” foi proposto na altura pelo meu professor, o saudoso e espetacular João Louro.