Inspirar, expirar. Acalmar a mente. Relaxar. Pernas cruzadas. Coluna ereta. O mundo lá fora está onde sempre esteve.

Inspirar, expirar. Coloco meus auscultadores. Não quero saber de correrias, de irritação ou de malas extraviadas. Relaxar.

Inspirar, expirar. Sinto-me leve. Meu filho não está a pedir para ir à casa de banho, nem minha mulher reclama das pernas.

Inspirar, expirar. Estou pronto para voar. Estou nas nuvens. Aqui tudo é prazer. Praia, sol, trabalhar para o bronze.

Inspirar, expirar. Meu voo não atrasou, nem estou há doze horas em Gatwick à espera de um avião.

Inspirar, expirar. Não tive que interromper as férias mais cedo por causa de uma gastroenterite nem tive de pagar um absurdo para remarcar a viagem. Claro que não, porque a cabra da minha mulher não esqueceu de fazer o seguro de viagem.

Inspirar, expirar. Porque é que eu não casei com a Sandra ao invés dela? Ela era tão boa de cama… Mas fui escolher logo aquele suplício. Arruma a cama! Pendura a toalha! Não deixa chávena de café suja!

Inspirar, expirar. A casa é minha! Até a máquina da Nespresso fui eu que comprei. Vai à merda! Eu deixo a porra da chávena onde eu quiser.

Inspirar, expirar. Pedir o divórcio, é disso que preciso. Vou pedir o divórcio. Férias não interrompidas e divórcio, o que mais um homem poderia querer?

Inspirar, expirar. Mas ela tem metade da casa e eu não tenho dinheiro para alugar uma. Malditos camones! Vieram todos para Lisboa e agora tá tudo caríssimo. Nem no Cacém eu consigo alugar algo por um preço acessível. Fodam-se! Voltem pra vossa terra, camones do caralho!

Inspirar, expirar. E se eu me fosse morar com a Marta? Ela passa o dia a fazer-me olhinhos. Porque é que digo sempre que não? Só porque sou casado? Até que a morte nos separe? Eu podia ter um caso com ela. Separava-me, dizia que era por causa dela, íamos morar juntos e pagava só metade da renda.

Inspirar, expirar. Mas e se ela for uma chata do caraças? Vou ter que terminar com ela, fico sem casa e com uma pensão de alimentos para pagar. Melhor continuar com minha mulher. Pensando bem, ela até nem é tão má assim.

Inspirar, expirar. Não, ela toma conta dos meninos direitinho. Lava a roupa. Deixa tudo sempre tão arrumadinho. Se fosse por mim a casa tava sempre um nojo. E o sexo não é nada mau.

Inspirar, expirar. Sendo muito sincero, o sexo é ótimo. Bem melhor do que com a Sandra. Além disso, eu é que devia ter tratado do seguro de viagem. Eu sabia que minha mulher não é boa nesse tipo de coisas.

― Amor?

Sinto um toque no meu ombro e abro os olhos ― Diz, Bem?

― O avião já chegou. Estão a chamar para a porta de embarque. Vamos?

― Vamos. Estou doido para voltar pra casa. Podíamos comprar uma máquina de lavar louça, daquelas pequenas, só para lavar as chávenas de café. O que achas?

― De onde é que fostes tirar uma ideia dessas agora?

― Nada não, deixa pra lá! Vamos logo antes que percamos o avião. E amor?

― Sim?

― Amo-te! E amo quando saímos de férias juntos.

Este texto foi escrito para o encontro de escritores promovido pelo podcast O Primeiro Capítulo, sob o tema “viagens”.