Não consigo dormir. Cheirei cola demais e ainda estou a sentir a ressaca. Tinha que comemorar, afinal é meu aniversário. Acabei de completar doze anos. Acabei de matar pela primeira vez. Foi o meu presente, o único que alguma vez recebi.

Ainda letárgico, sinto o corpo quente de Márcia encostado ao meu. Tínhamos deitado na rua, na embalagem de frigorífico que nos servia de cama debaixo da marquise de um daqueles arranha-céus do centro da cidade.

Na insônia da minha consciência pesada, rio baixinho um riso de choro triste. Homem não chora… e não mata. Não queria ter matado. Não foi minha culpa.

Estávamos a cheirar cola, eu e os outros meninos de rua. Era meu aniversário. Doze anos. Há três que viva nas ruas, fugitivo de um pai alcoólatra e de uma mãe que me abandonara recém-nascido. Queríamos cheirar mais, mas não tínhamos dinheiro. Um miúdo passou mesmo à nossa frente.

Era um miúdo qualquer, como tantos outros. Não devia ter mais do que quinze anos. Filho de família rica, com certeza. Tinha dinheiro com certeza. Apontei-lhe uma garrafa quebrada — Perdeu, prayboy! — mas ele ficou com medo e reagiu. Ataquei por instinto.

Peguei a carteira do corpo e ri quando vi o sangue a escorrer pelo passeio. Não achei graça nenhuma, era só a cola a rir através de mim. Passamos o resto do dia a cheirar mas agora o efeito passou.

Olho para a lua cheia a brilhar por detrás das torres da igreja da Candelária. Parece pintada a vermelho, cheia de sangue. Choro baixinho um choro de riso triste.

Ouço uma travagem brusca. Uma carrinha branca para de repente, mesmo à nossa frente. Vários homens saem dela a correr. Gritos. Tiros. A adrenalina desperta-me imediatamente. Sinto algo a passar por mim e tento acordar Márcia. Não se mexe. Sangue negro jorra de um buraco na sua cabeça.

Desato a correr. Mais tiros. Vejo meus amigos caírem, alguns à minha direita, outros à minha esquerda. À minha frente, o cano de uma pistola. Paro e escuto o estampido. Caio também. Já não sinto dor quando minha cabeça embate violentamente contra o chão. Sinto apenas líquido vermelho vermelho a escorrer pela minha asa.

Pela minha asa escorria o quê? Já não me lembro. Deixei-me adormecer sob o sol primaveril enquanto sorvia o néctar de uma verbena. Sinto-me confuso e tenso, como quem acorda de um pesadelo. Onde estava e o que aconteceu? Não me lembro, ainda que me esforce. Começa tudo a desvanecer.

Quem sou? Não sei… borboletas não têm nome. Nasceram para serem livres em tudo, até da prisão dos nomes. Nasci para ser livre. Lindo. Leve. Perfeito.

Uma brisa suave empurra meus irmãos, também eles lindos, para o céu. Batem suas asas multicoloridas e se deixam ir à procura de margaridas e de alfazemas. Sorrio simplesmente. Também eu bato as asas. Está na hora de partir e de me deixar levar por esse vento primaveril, para onde quer que ele me queira levar.

Este texto foi escrito para o encontro de escritores promovido pelo podcast O Primeiro Capítulo, sob o tema “sonho”.