Pulp [1]acendeu um cigarro enquanto olhava o belo exemplar sentado à sua frente. Madame Bovary [2] era o seu nome. Edição exclusiva de colecionador. Pulp não era muito fã de clássicos mas adoraria mergulhar naqueles capítulos.

— Sr. Pulp, eu… — Pulp não foi capaz de ouvir mais nada. A medida que falava, as capas de Bovary abriram-se ligeiramente, deixando entrever um papel fine art impecável, com um brilho único que o deixou de queixo caído. Bukowski que o desculpasse, mas aquele Flaubert Pulp tinha vontade ler até a contracapa.

— … eu preciso mesmo saber o que aconteceu com meu marido, Sr. Pulp. Já se passaram dias e nada dele aparecer. Disseram-me que o senhor é o melhor detetive de todos.

— Disseram e é verdade Srª… que dizer, Madame Bovary. Mas nem sempre os clientes gostam do que descubro.

— Então descobriu o que aconteceu com meu marido?

— Descobri. Mas a senhora… a madame não vai querer saber.

— Seja o que for, eu aguento.

Pulp acendeu mais um cigarro. Não havia sido fácil descobrir o que acontecera a Tom Sawyer [3], uma edição banal impressa em papel químico que tivera a sorte de casar com aquele fine art… O que é que ele tinha para dormir todas as noites com ao lado de um best seller daqueles?

Ok, obviamente Tom Sawyer era um clássico, daqueles que a gente lia vezes e vezes sem conta e que, se precisasse ler de novo, relia sem qualquer dificuldade. Mark Twain não escrevera só um livro, escrevera uma obra prima (ainda que impressa numa edição de 3ª categoria).

E quantos livros por aí podia dizer que inspiraram uma canção dos Rush? Mas, mesmo assim, como é que aquele Tom Sawyer agarrou um Bovary daqueles? A vida era injusta…

— Por favor, Sr. Pulp. Fale a verdade. Ele morreu?

— Morreu, mas a madame não vai querer saber os detalhes.

— Eu quero saber, Sr. Pulp. O culpado terá que pagar pelo que fez. Quem foi?

— Paulo.

— Paulo, que Paulo? Paulo Coelho?

— Não, Paulo Pinto.

— Que Paulo Pinto? Não conheço nenhum livro dele. O que é que ele escreveu?

— Nada, madame… Ele não é escritor.

— Então o ele é o quê?

— Só um cara que gostava de ler Tom Sawyer. Entenda o seguinte, madame. Seu marido era um bom livro. Um livro excelente, na verdade… mas teve um final muito ruim.

— Como assim final ruim? O fim dele era ótimo.

— O fim era ótimo, mas o final foi muito ruim.

— Mas… não estou a entender, Sr. Pulp.

— Madame, o tal Paulo gostava muito de ler na banheira… e semana passada levou pra lá o seu marido… E foi aí que o filho pequeno do tal Paulo entrou na casa de banho a correr… Madame Bovary, a senhora sabe o que acontece com um exemplar impresso em papel químico quando cai dentro de uma banheira cheia de água?

— Não!

— Infelizmente sim, madame… Ele era um bom livro, mas teve um final muito ruim.

Este microconto foi escrito para um desafio do do blog Projeto Escrita Criativa sob o tema um bom livro com um final ruim.

[1]: Pulp é uma novela escrita por Charles Bukowski.

[2]: Madame Bovary é uma novela escrita por Gustave Flaubert.

[3]: Tom Sawyer é uma novela escrita por Mark Twain .