Recomeço, odeio essa palavra. É uma palavra covarde. É uma palavra mentirosa. É a palavra que marca a minha geração e que vai marcar as gerações do futuro.

Recomeço é a síndrome do videogame, em que se morre e se morre e se volta sempre até criar memória muscular.

É a mentira do reencarnar, de um carma que nos acompanha sem nos acompanhar, resultado de algo cometido por outra pessoa, pessoa que já não somos.

É a indulgência dos relacionamentos que se acabam porque o amor acabou e que terminam num contentor descartável de lixo para reciclagem.

Só que o contentor não é descartável. Continua lá e perdura, cada vez mais sujo, ainda que seja despejado. Nós é que achamos que sim porque somos covardes tal como a palavra. Porque queremos recomeçar tal como a mentira. Não podemos.

Não podemos voltar a ser ex nihilo, a recomeçar. Há bagagem. Há vida. Há marcas e há cicatrizes. Há o caos dos nossos erros e do nosso desespero, que nos puxa para trás e nos leva a cometer os mesmos erros vezes e vezes sem conta… Porque queremos a saída covarde e mentirosa do recomeço de um recomeço que não existe.

Não há recomeços, só há as mentiras que nos levam a repetir e a repetir… até o dia em que não recomeçamos mais.

Não recomeçamos porque morremos. Porque chegamos ao fim dum eterno ciclo de repetições. Vencidos. Caídos. Quebrados. Sempre de volta ao início, sem sair do lugar.

Ou não recomeçamos porque decidimos não recomeçar, mas isso é tão mais difícil.

Abandonar a covardia. Abandonar a mentira. Chegar no ponto em que percebemos que pura e simplesmente não podemos voltar atrás. Que só podemos continuar essa nossa jornada do herói, nesse palco de teatro que não admite ensaios.

Encaramos o monstro de frente. Sentimos o seu bafo.

Seu hálito flamejante queima nossos braços e nosso rosto quase tanto quanto o medo que sentimos queima nossos corações.

Levantamos a lança. Esporeamos nossos cavalos e carregamos.

Se morrermos morremos, mas teremos nosso clímax. Nosso momento de glória em que demos nosso melhor contra o maior dos inimigos.

E recusamos a baixar a cabeça. E recusamos a covardia e a mentira. E recusamos a recomeçar.

E é aí que temos a vitória.

E é aí que, não recomeçamos mas voltamos ao início. Aprimorados… Aperfeiçoados… Preparados… Cheios de cicatrizes de batalhas que nos marcam mas que já não doem.

E sentamos ao pé da lareira, numa fria noite de inverno, com um copo de hidromel na mão enquanto vemos a neve cair com os nossos anos.

E percebemos que chegamos ao fim. Não das nossas vidas, não das nossas dificuldades nem do nosso caminho, mas da estória.