Excerto do romance “O Hospital Psiquiátrico”, escrito por Eduardo Fernandes.

A derradeira vantagem de se estar no fundo do poço é a liberdade de saber que já não se pode descer mais. Quando não temos mais nada a perder, qualquer receio, vergonha ou sentimento-travão deixam de ser importantes. Qualquer absurdo desesperado é válido na luta pela sobrevivência.

É engraçado o que nos vem à cabeça, nas horas mais absurdas. Lembrei-me de uma vez em que estava no Centro do Rio de Janeiro à espera de entrar nas barcas que atravessam a Baía de Guanabara, fazendo a ligação entre o Rio à cidade de Niterói.

Há um desnível entre estas embarcações e as plataformas de embarque. Quando estão a atracar, as barcas estendem uma longa rampa de aço que se inclina acentuadamente até tocar a doca. Os passageiros são instruídos a esperar pelo fim da atracagem antes de desce-la já que, se tiverem o azar de cair, serão cortados ao meio como se fossem uma barra de manteiga debaixo de uma faca quente.

Havia este menino de rua numa dessas barcas. Ele estava sentado em cima de um skate que usava para locomover-se, uma vez que não tinha pernas. Vestia apenas uma enorme t-shirt velha e suja que, na prática, funcionava como vestido. Tinha nas mãos um par de sandálias Havaianas que usava para impulsionar-se de um lado para o outro. Era o seu único meio de locomoção.

Quando a barca estava ainda a aproximar-se, e o espaço entre a doca e a rampa parecia uma boca aberta e faminta, o menino impulsionou-se para baixo, começando a descer a grande velocidade. Meu coração veio à boca. Vi claramente a morte a sorrir, pronta para ceifar mais uma vida, mas o cálculo do puto tinha sido perfeito. O skate tocou a doca no momento exato, depois seguiu pelo estaleiro a fora, em direção à rua.

Ouvi alguns comentários irados de passageiros que, assim como eu, esperavam a barca atracar para desembarcar. Que absurdo arriscar a vida assim! É maluco! Eu próprio devo ter falado qualquer coisa mas, à medida que o via afastar-se, comecei a pensar melhor e senti um aperto do coração. Ser menino de rua não deve ser fácil. Por mais que não morra de amores por eles, não consigo imaginar-me com oito anos de idade a precisar sobreviver sozinho, sem ninguém.

Que futuro uma criança dessas pode aspirar? Que outra vida ela conhece? Creio que é impossível para nós, meros mortais, imaginar o que é viver o darwinismo mais puro e ver todos à nossa volta como presas ou predadores.

Se já é absurdo viver como menino de rua, o que dizer daquele menino que, além de dormir ao relento, não tinha as pernas? O que é que perderia sendo esmagado? A vida? Ele nunca viveu realmente, apenas sobrevivia como podia. Não havia nada a perder uma vez que já havia nascido sem nada. É o paradoxo da liberdade perfeita, que só pode ser alcançada quando já não se tem nada.

Naquele momento, em frente aquele polícia, ali em pleno aeroporto de Lisboa, sentia-me como aquele menino e também me impulsionei rampa abaixo – Quero falar com o seu chefe. Creio que o nome dele é Gouveia, se não me engano.

Este texto foi escrito para o encontro de escritores promovido pelo podcast O Primeiro Capítulo, sob o tema “liberdade”.