— Um duplo, se faz favor. — Peço um café ao empregado e pergunto à distinta senhora sentada à minha frente se quer algo para beber.

— Não, obrigada. E podes tratar-me por tu, já agora. — Ela responde, tirando um cigarro electrónico da mala.

— Ok, então vamos ao que interessa. O meu livro é sobre uma mãe que entra em depressão após a morte do seu marido e decide jogar-se da ponte 25 de Abril com o filho pequeno ao colo.

— Pois, infelizmente não gostei e não será possível publicá-lo.

— Mas tu nem mesmo leste o livro!

— Tens noção de quantos pseudo-escritores mandam manuscritos para análise editorial? Achas mesmo que eu tenho tempo para ler tudo o que me enviam?

— E como é que decides o que vais publicar?

— Estás a assumir que eu publico alguma coisa… Como o mercado editorial como está actualmente, é uma grande assunção.

— Certo… Mas assumindo que publicas, como é que decides o que publicar?

— Normalmente leio a sinopse.

— Mas eu acabei de dizer a minha sinopse.

— E ela é péssima, sorry

— Péssima! Porquê?

— Bem, a personagem principal é uma mulher, o que é bom… Mas está apaixonada por um homem. Por um homem! Tão dèmodé. Hoje em dia ninguém mais quer ler nada que envolva personagens que sejam heterossexuais. Ela é branca, já agora? Porque não há nada mais cliché do que um livro com uma personagem principal branca.

— Mas então os brancos não podem mais ser personagens principais?

— A não ser que tenham sérios distúrbios de personalidade, ou que tenham o corpo todo tatuado, ou que gostem de ser espancadas em sessões de sexo sadomasoquista, não.

— Ok, mas ela é uma mãe com um filho. Ainda não inventaram maneiras de fazer filhos sem sexo hétero, não é verdade?

— Ela pode ter adoptado um puto cambojano. Funcionou com a Madonna. Ou pode fazer como o Cristiano Ronaldo e contratar uma barriga de aluguer. Ou, melhor ainda, ela pode ter sido violada por um grupo de homens brancos e pedófilos durante uma secção de sadomasoquismo num país retrógrado que ainda nega às mulheres o direito ao aborto.

— Mas pedófilos só gostam de crianças e ela é uma mulher.

— Detalhes, meu caro. Detalhes… Tás a ver porque é que eu não me dou ao trabalho de ler manuscritos? Imagina se eu fosse ler os textos de um escritor que nem mesmo sabe o que significa “suspensão da descrença”.

— Eu sei o que é suspensão da descrença…

— Claro que sabes… Deixa eu avinhar, vai aparecer um Deus Ex Machina qualquer e salvá-la no último momento?

— Não! Ela perde a criança, é presa por alguns anos e acaba por reencontrar-se consigo mesma com a ajuda de um grupo de sobreviventes de tentativas de suicídio, organizado por um rabino piedoso.

— Um rabino… judeu?

— Há rabinos que não sejam judeus?

— Tens certeza de que queres fazer com que uma das personagens mais importantes do livro seja um judeu, um povo opressor e responsável pela crise no oriente médio?

— O judeus não são opressores. Pelo contrário, têm sido perseguidos por todos, desde o Império Romano até Hitler. E toda a gente sabe que a crise do oriente médio tem a ver com o aumento da necessidade de energia por causa do mudança do eixo económico do Atlântico para o Oceano Pacífico.

— Tu escreves assim de forma tão chata no teu livro? Porque isso foi tão entediante que já tinha perdido o interesse ali pelo Império Romano.

— Ok, vamos assumir que eu reescrevo o livro todo de acordo com as tuas sugestões. Seja sincera agora. Há alguma possibilidade de eu ser publicado?

— Deixa-me ver… Tu és um youtuber famoso?

— Não.

— Tu já tiveste algum caso com o Pinto da Costa?

— Não.

— E tu já comestes algum crime hediondo?

— Já fumei um charro…

— Aqui em Portugal fumar marijuana não é crime. Além do mais tem que ser um crime a sério, que interesse às pessoas, tipo matares a tua família inteira ou esquartejares alguém em plena luz do dia com um machado.

— Machados são difíceis de usar. Não poderia ser com uma motosserra?

— Isso! Tás a ver porque é que ouvir um editor faz toda a diferença? Uma motosserra ficaria perfeita nas gordas do Correio da Manhã.

— Óptimo! Porque, só por acaso, eu tenho uma motosserra aqui comigo. Tu és alguém e estamos em plena luz do dia…

— Como assim? Ei, espera. Espera!

Romance do Assassino da Motosserra lançado na Feira do Livro de Lisboa

Esta sexta-feira, na Feira do Livro de Lisboa, será lançado o novo romance de Diogo Nunes, mais conhecido como o assassino da motosserra, por ter alegadamente esquartejado sua editora num café hippister da baixa lisboeta.

O livro conta a estória de Dalva, uma albina negra, de género não binário e com o corpo coberto por tatuagens, que resolve vingar-se de judeus pedófilos, praticantes de sexo sadomasoquista, que a espancaram após uma discussão por não terem reciclado os copos plásticos das bebidas que haviam comprado numa cadeia de fast food.

Versão em português do Brasil: O Assassino da Serra Elétrica.