Alguém deveria fazer uma análise sociológica do COVID. Nada de microbiologia, que ela não é para aqui chamada… sociológica mesmo.

Digo isto porque o COVID é o “la crème de la crème” dos vírus, o topo da evolução. Pode não ser o que mata mais, pode não ser o que mata pior, mas é um verdadeiro Einstein no que tange à forma de escolher as suas vítimas.

É como aqueles filmes de terror da década de 90 — dos Jasons, dos Michael Myers e dos Fred Kruegers da vida — em que morrem todos os rapazes e quase todas as raparigas, e a única sobrevivente é aquela que se manteve pura.

Qual a relação entre a virgindade e a sobrevivência contra assassinos psicopatas? Boa pergunta… ela já foi respondida em algumas teses de doutoramento, mas estou com preguiça de ir procurar os artigos e colocar aqui as referências.

Anyhow, há um mês comecei a trabalhar na Expo e apanho diariamente o comboio e o metro.

Apesar do receio inicial, fiquei muito tranquilo ao perceber que os transportes públicos estão protegidos contra o COVID, já que ali os ajuntamentos não são um problema. As pessoas sentam-se umas ao lado das outras e fazem questão de transmitir calor humano quando estão para entrar nas carruagens.

Nas comemorações do Sporting e nos Santos Populares, por outro lado, tal comportamento seria inapropriado porque o COVID é feroz com grupos que estejam a comemorar algo.

Outro ponto muito interessante é que o COVID só ataca pessoas que estejam de pé. A cadeira foi considerada pela OMS uma barreira de proteção impenetrável contra este demónio da vida moderna. Basta levantar-se que, imediatamente, o perigo de contaminação é máximo.

Alguém senta sentado com os amigos a tomar uma cervejinha… 100% seguro. Alguém levanta-se para fizer xixi e esqueceu de pôr a máscara… Já foste!

Na praia, as pessoas ficam mais vulneráveis porque o COVID é atraído para indivíduos em fato de banho. Nos parques, como as pessoas estão pudicamente vestidas, já se pode ficar tranquilo. Também está cientificamente provado que a probabilidade de ser infetado dentro de uma loja é 359% maior do que na fila em que se espera para entrar.

Isto pode, aquilo não. Jogo da UEFA pode, de rugby não. Pim, pam, pum, cada bola mata um, p’ra galinha e para o peru quem se livra és mesmo tu.

E embora o comportamento do vírus possa parecer ilógico e errático, não é, muito pelo contrário. É o resultado da evolução sociológica de um vírus cujo QI é muito maior do que muitas pessoas em que muitas pessoas por aí.

É exatamente isto que o governo compreendeu e é exatamente por isso que a grande Lisboa será isolada durante os fins de semana. Como qualquer um consegue ver claramente, o vírus transmite-se muito mais com a cidade vazia aos fins de semana do que com a cidade cheia.

I will be good

Enfim, o que me irrita nisto tudo não é ter que ficar fechado em casa, nem a pandemia em si, é ser chamado de estúpido.

Porque é óbvio que estamos todos a viver num faz de conta de medidas com muito pouca eficácia. É óbvio que não podemos mais fechar a economia e é obvio que a única forma realmente eficaz de lutar contra o COVID é a vacina, assim como é óbvio que ainda levará tempo até que a vacina tenha o efeito desejado.

Mas o que se vê é perfumaria. De um lado, decretos para inglês ver, simulacros de realidade que só servem para criar uma falsa sensação de segurança, Do outro, notícias para gerar pânico nas televisões.

Não tem a ver com negacionismo, pelo contrário. Num momento como este, quero e preciso acreditar no governo, mas já não consigo. Acho que ele já perdeu quase toda a sua credibilidade e o pior da crise do COVID está longe de chegar.

Ainda assim, o governo está com um índice de aprovação altíssimo e quase a atingir a maioria absoluta, se houvesse eleições. É ou não é caso para alguém faça uma análise sociológica do COVID?