Hoje descobri que a empresa de gelados Ben & Jerry’s não venderá mais gelados em Israel como forma de pressão sobre a questão dos territórios ocupados da Palestina. Isto pode parecer uma notícia menor, mas não é, muito pelo contrário.

É engraçado que nós, ocidentais, nos vemos como o povo mais avançado do mundo, o que é verdade, principalmente se pensarmos que, o que fazemos mesmo bem é matar.

De nós saíram o Império Romano, as cruzadas, a inquisição, a bomba atómica, e famosos psicopatas genocidas como Hitler e Stalin. Nós destruímos África, criamos o problema Israelo-palestino e o terrorismo árabe. Num dado momento, resolvemos suicidarmo-nos com a Primeira Grande Guerra e quase o conseguimos com a Segunda.

Se há uma paz relativa no ocidente nos dias de hoje, é porque percebemos que ou nos entendíamos ou acabaríamos todos em valas comuns. Como Einstein disse, “não sei como será a Terceira Guerra Mundial, mas a quarta será travada com paus e pedras”.

Com todos os seus problemas, a nossa paz começa com a ONU. Graças às relações multilaterais entre os países passamos a conversar. Ao mesmo tempo que o é um resultado dos valores ocidentais, também ajudou a disseminá-los. Dela surgiram as declarações universais como a dos direitos do homem, e outras iniciativas que ajudaram o avanço da democracia, o fim da censura, etc…

Enfim, surgiram várias organizações mundiais e regionais que ajudaram a fomentar ainda mais esta paz, porque fugir às regras poderia implicar em sanções por parte dos outros e até mesmo intervençẽos militares.

Resultou tão bem para o ocidente que hoje temos a certeza de que a fraternidade e a igualdade são direitos fundamentais e garantidos, quando não são. Levou milénios até que aprendêssemos a dialogar e sermos iguais perante a lei, e parece que voltamos a esquecer disso.

Hoje, achamos bem quando empresas como a Google o Facebook ditem agendas mundiais e a censurem até mesmo ex-presidentes.

Hoje, achamos bem que empresas de gelados imponham sanções económicas a outras nações, quando nem a ONU nem os outros países o fazem.

Mas o problema é que, ao tomarem este tipo de atitudes, estas empresas reivindicam para si o estatudo de Estados cujos únicos cidadãos são os seus acionistas e cujas agendas seguem interesses altamente duvidosos.

Tanto a primeira quanto a segunda guerras tiveram origem em novos estados que não se viam representados e tiveram que conquistar o seu espaço. O que me parece a mim, é que novos estados estão a surgir destas empresas globais e não se faz nada para travá-las.

Se no passado houve estadistas dispostos a combater pelo que acreditavam, hoje temos apenas políticos que só se interessam por votos e que permitem que estas empresas agreguem mais e mais poder, sem submeter a leis nem a constituições.

E há de chegar o dia em que essas empresas reivindicarão aquilo que, de facto, já são. Elas criarão, então, as próprias leis, numa violenta batalha que muitos nem se aperceberão que ocorreu. Viveremos felizes nas nossas tecnocracias democráticas, a comer um gelado Ben & Jerry’s enquanto assistimos a vídeos no Youtube e postamos fotos no Instagram.