Quando eu era criança pequena, acreditava no ”melhor”. Tinha um escritor preferido, um filme preferido… acreditava que deveria votar no melhor político, que havia empresas com consciência social… acreditava até no pai natal e no coelhinho da pascoa.

Como tempo, comecei a ler e isto fez-me ver que é impossível gostar de um escritor mais do que todos os outros. Há momentos da minha vida em que Bukowski anda sempre comigo, em outros só quero Stephen King e, por mais que eu tente, acabo sempre por reler Érico Veríssimo.

A mesma coisa com os filmes. Matrix, Imperdoável, De Volta para o Futuro, Pulp Fiction, Jurassic Park… Já os vi tantas vezes que seria injusto dizer que gosto mais de um ou de outro. Depende do dia…

O meu choque de realidade empresarial aconteceu com o “Criança Esperança” da Rede Globo, um programa que a emissora realizava todos os anos para angariar fundos para ajudar as crianças pobres do Brasil. Tudo muito louvável, só que eu descobri que a empresa juntava o dinheiro doado pelo público e declarava nas finanças como sendo uma doação sua, o que lhe valia imensos benefícios fiscais.

Não posso dizer que uma empresa (ou uma personalidade) que faça um projeto social que vise o lucro ou a publicidade tenha consciência social, mas esta é uma opinião minha. Cada um tem a sua.

A mesma coisa com a política. Hoje em dia, percebi que não vale a pena procurar pelo melhor candidato porque todos estão muito abaixo das minhas expectativas. A questão aqui perceber quais são os políticos que serão tão maus (e serão quase todos) que tornem uma das opções aceitável.

Perder um dedo é mau. Mas perder um dedo quando as alternativas passam por ser esquartejado, parece-me a escolha correta.

Dito isto, apesar de não ligar muito à política brasileira, eu não gostava do Bolsonaro quando ele se elegeu pela primeira vez. Mas com base no que eu tenho visto, no que tenho ouvido dos meus pais e de outros amigos, passei a achar que os seus oponentes (incluindo o Lula) são tão ruins que ele passa a ser a melhor opção. Votaria nele se ainda vivesse no Brasil e isso faz-me um “apoiante” do Bolsonaro.

Outro dia estava a ouvir um comentarista na TVI e ele dizia que os apoiantes do Bolsonaro são todos de extrema-direita e radicais, além de umas outras quantas coisas desagradáveis.

E foi então que eu, que acreditava ser de esquerda e muito pouco radical, descobri que, na verdade, sou de extrema-direita e que tenho tendências autoritárias.

Também descobri que sou negacionista. Isto porque, embora aceite que a COVID exista e que a vacinação seja boa, discordo de várias medidas eleitoreiras e populistas (para inglês ver), que vêm sendo tomadas por este governo e que têm restringido em muito, várias das nossas liberdades, algumas vezes contra a própria constituição.

Há comentaristas que até afirmam que “nós negacionistas” temos que ser veementemente calados e sofrer todas as consequências da lei, como se ter uma opinião contrária fosse uma espécie de terrorismo. Talvez seja mesmo…

E acho muito engraçado que os mesmos jornalistas que não são capazes de usar o nome de “Ricardo Salgado” e a palavra “corrupção” numa mesma frase sem juntar um “alegadamente”, sejam tão rápidos a generalizar um número enorme de pessoas como sendo de “extrema direita” e “negacionistas”, quando não o são.

Provavelmente é porque estas pessoas não têm o dinheiro necessário para entrar com um processo por difamação.

Parece-me a mim que hoje em dia, qualquer um que discorde da narrativa jogada na opinião pública é ”fascista”, ”negacionista”, ”racista” ou ”homofóbico”… mas será que são mesmo, ou será que estão apenas a ser rotulados com um nome feio?

Talvez este rótulo feio faça com que as outras pessoas não parem para pensar que há um meio-termo inteligente entre a aceitação simples de uma ovelha e a negação absoluta de um touro enraivecido?

Seja como for, só peço que da próxima vez que me rotulem como negacionista, que pelo menos metam lá um ”alegadamente”.