Outro dia alguém pediu-me para escrever uma pequena crónica de autoajuda e perguntou se queria que o texto fosse editado.

— Claro que quero!

— É que muita gente não quer…

— Pois… e é por isso que precisam de ler crónicas de autoajuda…

Editor é como vacina: é muito chato, dói e costuma causar reação, mas salva vidas (principalmente de escritores).

Entendo que as pessoas se achem as melhores e acreditem ter um domínio perfeito da língua, afinal há coisas que só se fazem com alguma dose de arrogância. O que não percebo é o porquê — já que está tudo tão perfeito — de não se ouvir o que o outro tem a dizer.

Publiquei recentemente um pequeno conto. Achava que estava bem escrito, mas recebi do revisor umas 259 sugestões de correções. Algumas eram sobre gralhas vergonhosas; outras — relacionadas a vírgulas e pontos — poderia ter discutido que não era bem assim; as últimas — muito poucas, nos diálogos — finquei o pé e disse fazia parte do meu estilo pessoal.

No fim, fiquei super feliz com o resultado.

Texto não é bebé de colo que precisa ser protegido, mas talvez o errado seja eu. Conheço quem tenha um apreço tal pelo que escreve que não permite que seja alterada uma vírgula. Sou daqueles que vê o texto como um charro, que passa de boca em boca e de mão em mão.

Além do mais, tudo na vida implica cedência. Como os The Black Eyed Peas já cantavam, you gotta meet me halfway.

E já tive textos meus recusados por editores. Um deles, em particular, sou grato pela recusa. A ideia estava boa, mas a execução péssima. Percebi que teria que o reescrever e o fiz. Espero publicá-lo no futuro.

A posição do editor também não é fácil, exatamente porque toda a gente se acha a melhor e acredita ter um domínio perfeito da língua. Também já tive que fazer leituras críticas e, quase sempre, a resposta é um esfriar de relações que se segue a um seco obrigado ou a um «pega a tua opinião e enfia no recto».

Não que eu tenha sido particularmente agressivo nas críticas ou tido alguma intenção de derrubar o pobre do escritor, mas parto do princípio que quando se pede a alguém uma leitura crítica, quer-se uma opinião crítica.

«Está uma maravilha, querido.» A gente só ouve da mãe e, mesmo assim, quando ela está bem disposta.

Às vezes fico a imaginar um desses editores que aceitam autores não publicados (o meu caso, infelizmente) e que têm que levar com duzentos manuscritos pessimamente escritos para encontrar aquele “um” que vale a pena.

Obviamente, estou a assumir que o meu é este “um”… mas pode ser que acabe por mandá-lo também “pegar a sua opinião e enfiá-la no recto” se ele disser que, afinal, estava nos outros duzentos.

Mas assumindo que sim, que o meu manuscrito tem qualidade suficiente para ser publicado, claro que quero um editor.

Claro que quero ser revisado e claro que quero alguém que me dê dicas sobre frases que possam ser mais bem estruturadas ou parágrafos pouco compreensíveis. Talvez me indique uma ou outra coisa que possa ser eliminada. O que não sei é se queria o kindest cut do Gordon Lish.

Quando um editor corta cinquenta páginas de um texto, até que ponto fui eu que escrevi? É a tentação de Fausto em que o editor é Mefistófeles e oferece a fama em troca da alma do texto.

E como tudo na vida tem dois lados, e se o editor for, na verdade, o joalheiro que irá lapidar o diamante bruto que é o meu texto para mostrar a sua verdadeira alma?

Anjo lapidador ou demónio interesseiro?

E tu? Queres que o teu texto seja editado?