— Qual o teu veneno?

Glenmorangie quinze anos, se faz favor. Duplo. Não… Pensando bem, hoje meto o pé na cova. Qual é a pior zurrapa que tens aqui?

— Sofrendo de amores?

— Desamores…

— Não é a mesma coisa? Nada que um Cutty Sark não resolva. Esta merda é tão má que uso pra desinfetar a casota do cachorro. Mas conta-me que sou todo ouvidos.

— The same old story… uma gaja faz-se de difícil, tipo teste de fidelidade, e descobre que o safado andava já cheio de más intenções. Não teve conversa, beijinho, nem sexo de reconciliação. Quando percebi, tava na rua com uma mão na frente e outra atrás.

— A sério?

— A sério. Ainda teve a lata de me dizer que a fila anda.

— Então ele já tinha outra?

— Outra? Outra, outro… Conheces aquela estória de “mijou sentado e não é sapo, já te como”? Como ele nem precisa sentar…

— Grada cabrão!

— Yah! No mesmo dia já estava cheio de olhinhos para a chavala dos cachorros.

— Dos cachorros? … a Inês?

— Essa mesma! Vagabunda… Só que ele deu de frosques.

— Então?

— Então ele conheceu um velhote com jeito de vendedor de carros usados, sabes? Um tipo meio careca, com o cabelo oleoso, que nunca sabe em que lado da rua há de andar.

— Meio careca… jeito de vendedor… Ah, o Rui!

— Isso, o Rui.

— Ele trocou-te pelo Rui?

— De início pensei que sim, mas descobri que o Tavares já tinha até mudado o status no Facebook para “num relacionamento sério”.

— O Rui e o Tavares ao mesmo tempo?

— Yah…

— Mas ele é assim com toda a gente?

— Sabes como é a conversa dele: “amo-te, mas estou sempre disponível para diálogo com outros intervenientes”. Fiel até o próximo match no Tinder, o cabrão. Só não quis nada com o André?

— Porquê não? Ele até é jeitoso.

— Também acho. Ele, lá em casa, fazia uma granda revolução no comité central aqui da Cati. O meu gulag tá mais deserto que a Sibéria… Tava mesmo a precisar de um dissidente.

— Viste o que um pouco de Cutty Sark não faz? Nada como uísque reles e gajos para esqueceres o teu ex. Como era mesmo o nome dele?

— António.

— Pois… Se quiseres, dou-te o telemóvel do André. Ele é cliente da casa, vem sempre comer cachupa.

— Como assim cachupa? Ele é racista, não ia querer saber de comida africana.

— Só se for por não gostar de brancos, porque da África ele adora.

— Não creio!

— Ah crês sim… Tenho até uma garrafa guardada que ele pede sempre: grogue caseiro, direto de Cabo Verde.

— Não dá mesmo pra acreditar no que os jornais dizem.

— Pois… mas, de volta à conversa, então o teu ex está num relacionamento sério com o Tavares?

— Não, tá sozinho mesmo.

— Sozinho?

— Aquele nasceu com o cu virado pra lua. Não é que ganhou uma herança inesperada, ficou cheio de guita e decidiu que já não precisa de ninguém. O dinheiro é tanto que basta ele bocejar e já tem quem lhe queira aquecer o lençol. Cabrão!

— Catarina, Catarina… A coisa tá preta pro teu lado. E agora? Como vai ser?

— Não tens o telemóvel do André? Do jeito que as coisas estão, é melhor começar a pensar em alguém pra fundar um bloco de direita. Se é pra estar na boca do povo, antes mal acompanhada do que sozinha.

Nota do autor: qualquer semelhança com pessoas ou factos reais é mera coincidência.

Este mini-conto foi escrito para a reunião do grupo de escrita O Primeiro Capítulo.